quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Os stalinistas do MR8


O MR8 - Movimento Revolucionário 8 de Outubro, era uma organização de extrema-esquerda que participou da luta armada contra a ditadura militar. Realizou o sequestro do Embaixador dos EUA, Charles Elbrick, em 1969, e teve em suas fileiras, o lider guerrilheiro Carlos Lamarca, ex-capitão do exército, assassinado pela ditadura em 1971.

Em 1972, o MR8 abandonou a luta armada. Dois anos depois, ingressou no MDB - Movimento Democrático Brasileiro, passando a fazer parte da oposição democrática a ditadura. Foi nessa época, que a organização aderiu ao stalinismo. Com o fim do bipartidarismo, o MR8 permaneceu filiado ao PMDB.

Em 1982, os stalinistas do MR8 realizaram o III Congresso Nacional, onde chegaram a conclusão que a revolução brasileira não era socialista, mas sim nacional-democrática, pois a contradição principal não era capital X trabalho, e sim nação X imperialismo. Com isso, definiram que a burguesia nacional era aliada na luta pela revolução brasileira, decidindo se integrar ao PMDB, pois esse seria o "partido revolucionário". O MR8 aliou-se então a Orestes Quércia, que seria eleito governador de São Paulo em 1986.

Apesar de continuar se definindo como marxista-leninista e stalinista, o MR8 se tornou uma espécie de "tropa de choque do quercismo". Em 1989, apoiou Ulisses Guimarães para presidente, e no segundo turno fez campanha pelo voto nulo. Em 1994, apoiou Orestes Quércia, pixando nos muros as inscrições "QUÉRCIA VEM AÍ!"

Quércia não veio, o MR8 sofreu um racha em fevereiro de 1995, que originou o PCR - Partido Comunista Revolucionário. Então, o MR8 passou a defender Getúlio Vargas, afirmando que a ditadura do Estado Novo havia sido uma "democracia popular".

Em 2002, apoiou a candidatura de Lula. Os stalinistas do MR8 - Movimento Revolucionário 8 de Outubro, que além de idolatrar Stalin e a dinastia stalinista norte coreana, também idolatram Getúlio Vargas e Hugo Chavez, apoiaram a reeleição de Lula em 2006.

Em 2008, Quércia se aliou aos tucanos. Por causa disso, em dezembro desse ano, o MR8 se desfiliou do PMDB, rompendo de forma amigável com o quercismo. E em 21 de abril de 2009, o MR8 se transformou em partido, fundando o PPL - Partido Pátria Livre.

Leia o texto abaixo e reflita.


PPL: novo partido de esquerda?


Max Gimenes

Reunido no último fim de semana no centro da cidade de São Paulo, o Comitê Central do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) deliberou a respeito do futuro da organização que, após mais de 30 anos, enfim deixa o PMDB. Ao contrário do que se chegou a cogitar (suposição razoável, aliás, haja vista o exacerbado lulismo que ultimamente tem caracterizado o movimento), não houve proposta de entrada no PT, mas sim o encaminhamento para a busca das 500 mil assinaturas necessárias para a criação de um novo partido até junho de 2009, prazo para que este possa disputar eleições já em 2010.

Chamado Partido Pátria Livre (PPL), referência ao Hino da Independência, a agremiação seria uma forma, segundo seus idealizadores, de avançar na construção de uma frente nacional-desenvolvimentista, cujo líder é o presidente Lula e cujos partidos de sustentação seriam mesmo PT e PMDB, juntamente com o restante da base do governo federal. Criando uma nova legenda, o MR-8 pensa poder conseguir mais espaço e ter mais peso nas negociações políticas, em vez de se tornar mais uma corrente interna no PT.

Contra a entrada no Partido dos Trabalhadores pesa também a forma como este costumava se organizar. Uma das coisas mais importantes introduzidas pelo PT na política brasileira, a democracia interna e a participação ativa da base – embora essas coisas hoje não funcionem bem assim – não são tão bem vistas pelo MR-8. Estes, de tradição stalinista, consideram essa estrutura, com livre organização interna em correntes e tendências, uma bagunça. Preferem um centralismo democrático em que a direção determina a linha e a base segue à risca.

Em seu manifesto de lançamento, datado do dia 7 de dezembro, o pretenso partido reafirma seu compromisso com a visão etapista de revolução, apontando ser necessária a aliança com a burguesia nacional não-monopolista para promover a libertação nacional e derrotar os monopólios internacionais. E, assim, ajudar a jogar terra na cova onde se meteram o imperialismo estadunidense e a ideologia neoliberal por ele sustentada.

O PPL surge, sempre de acordo com o seu manifesto de lançamento (intitulado "Carta ao povo brasileiro", pasmem), como um partido "de esquerda". Não faltou, é claro, uma alfinetada, ainda que sem referência nominal, naqueles que fazem oposição de esquerda ao governo Lula: PSOL, PSTU e PCB. Há as seguintes colocações: "fora dela (a tal frente) o que existe é o retrocesso" e "os setores que se pretendem à esquerda do governo Lula (têm sido levados) ao vexatório papel de linha auxiliar das viúvas do neoliberalismo encasteladas no PSDB e no DEM", estes últimos efetivamente citados.

Em um dos cinco princípios que servirão de alicerce para a futura sigla, há o compromisso com um "horizonte socialista". Se depender do pragmatismo do MR-8, é possível que não haja ser humano para contar história quando chegar tal momento, pois o capitalismo atualmente nos arrasta ao precipício. Para aqueles que imaginam que os "revolucionários" do MR-8 estão rompendo brigados com o partido ao qual ainda pertencem, esqueçam. Sem radicalismos, companheirada. O manifesto é encerrado com um parágrafo que faz média com o PMDB, aquele de José Sarney, Renan Calheiros, Orestes Quércia, entre outras tantas figuras bastante conhecidas pelos brasileiros. Para o MR-8, foi uma "honra" permanecer por lá durante todo esse tempo.

Em recente debate sobre a crise financeira global e também em sua coluna no jornal "Folha de S. Paulo", Cesar Benjamin – editor da Editora Contraponto e, por acaso, ex-militante do MR-8 – afirmou que as turbulências na economia mundial poderão ter sérios impactos no Brasil. O que pode trazer conseqüências para o jogo político-partidário brasileiro que hoje parecem inimagináveis, como uma aliança entre PT e PSDB, por exemplo, em defesa dos interesses nacionais (o que contaria com o apoio entusiasmado do tal PPL, nacionalista acima de tudo).

A criação desse novo partido, ainda que seja algo de certa forma pouco relevante e que talvez nem sequer se concretize, sinaliza que há mesmo espaço para movimentações e rearranjos. O que está por vir não sabemos, mas as surpresas já começam a aparecer.


Max Luiz Gimenes, professor de redação da Rede Emancipa de Cursinhos Populares, é militante do PSOL.

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