domingo, 5 de fevereiro de 2012

Os socialistas democratas do PT

O PT - Partido dos Trabalhadores, nunca foi comunista. Apesar de fortemente influenciado pelo marxismo, o partido nunca se declarou marxista, defendendo um socialismo plural que reuniu várias vertentes do marxismo, com setores da esquerda católica(Teologia da Libertação), ecologistas, humanistas, e sindicalistas compromissados com a luta da classe trabalhadora. O PT sempre garantiu o pleno direito de tendências permanentes se organizarem em seu interior, o que garantiu essa pluralidade. 


Fundado em 10/02/1980, o partido nasceu criticando o autoritarismo e o burocratismo dos regimes socialistas na URSS e no Leste Europeu, deixando claro que sem democracia não pode existir um socialismo verdadeiro. Como disse o deputado federal Emiliano José: "Logo ao nascer, o PT disse a que vinha: a luta pelo socialismo era indissociável da luta pela democracia. Não mais a ditadura do proletariado. Não mais o sacrifício das liberdades em favor de conquistas sociais." (Emiliano José; em "O PT e o Brasil")


No princípio, o PT era caracterizado por um certo sectarismo, limitando suas alianças aos partidos de esquerda. Mas após as 3 derrotas de Lula, nas eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998, o partido abandonou esse sectarismo, tornando-se vocacionado para governar o Brasil. 


"Depois de muitos tropeços e equívocos, compreendeu que um sonho que se sonha só é apenas um sonho. Chegar ao poder, governar o Brasil exigia amplitude, capacidade de fazer alianças com os diferentes.A revolução deixava de ter data marcada. Não mais a quimera do grande dia da conquista do céu. A transformação do País seria fruto de uma paciente construção cotidiana. Guerra de posição. Não mais o assalto ao Palácio de Inverno. Gramsci assume o lugar antes ocupado por Lênin. As classes trabalhadoras tinham que ser conquistadas e conquistar corações e mentes da sociedade brasileira. As forças do atraso eram muito mais fortes do que pretendia o jovem PT." (Emiliano José; em "O PT e o Brasil")


O PT chegou ao governo com a vitória de Lula em 2002. O governo Lula não era de esquerda, mas não porque os petistas e seus principais aliados(PSB, PDT, e PCdoB) assim o quisessem, e sim pelo fato da esquerda não possuir condições de disputar com um discurso socialista, a hegemonia na sociedade. Na conjuntura atual, a esquerda precisa se aliar ao centro e até mesmo a centro-direita, para promover uma política capaz de superar o modelo neo-liberal e assim resgatar o nacional-desenvolvimentismo. 


O governo Lula não era neo-liberal, e sim um governo de centro-esquerda moderado, que possuia erros, mas promoveu a redução da miséria em nosso país, criando empregos. Esse governo deteve o fetichismo privatista da era FHC, tanto que não privatizou o Banco do Brasil e a Caixa Economica Federal, como pretendia fazer o senhor Maílson da Nóbrega, quando ministro da Fazenda do governo FHC. Não privatizou Furnas, Eletrobras, e os Correios, como os tucanos e seus aliados do DEM - Democratas, defendem abertamente.


E mais, o governo Lula ampliou a participação do Estado na economia, não somente através do monopólio estatal sobre o Pré-Sal, mas também com uma fiscalização mais rigorosa no setor de mineração. Essa ampliação se manteve no governo Dilma, e vem promovendo o ataque raivoso dos neo-liberais contra o governo. Vejam o que diz o professor Cândido Mendes: "Há, sim, confronto radical entre os dois regimes, ao contrário do que diz, e os tucanos abriram o país à globalização privatista hegemônica, enquanto o petismo vai hoje, com a melhoria social do país, à recuperação do poder do Estado, numa efetiva economia de desenvolvimento sustentável." (Cândido Mendes; em Para Onde Não Vamos)


O governo Dilma deu continuidade as políticas do governo anterior, sendo portanto, um governo de centro-esquerda moderado, de caráter nacional-desenvolvimentista e social-liberal, com alguma influência do pensamento social-democrata.


O PT é um partido socialista, seu objetivo é superar o capitalismo pela via processual, construindo uma sociedade socialista e democrática. Isso não se faz da noite para o dia, precisa-se primeiro disputar a hegemonia na sociedade, respeitando a realidade da conjuntura atual, que não permite que essa hegemonia seja disputada com um projeto socialista. O governo Dilma também tem erros, merece receber críticas e até mesmo sofrer uma oposição lúcida e construtiva por parte de setores mais radicais da esquerda, o que infelizmente não vem ocorrendo. O PSOL, insiste em promover um tipo de oposição desleal, classificando o governo como neo-liberal. É um erro, tão grave quanto os erros do governo Dilma, que os psolistas combatem com vigor.


Abaixo, texto publicado quando o partido fez 30 anos, em 10/02/2010.


"O PT e as esperanças trinta anos depois
Tarso Genro e Vinícius Wu


Ao completar 30 anos de existência, o PT já pode orgulhar-se de ter escrito uma das mais importantes páginas da história recente da esquerda mundial. Basta analisarmos (e compararmos) a trajetória dos demais movimentos e agremiações partidárias que, mundo afora, mobilizavam energias, esperanças e utopias à época da fundação do PT, para atestarmos esta afirmação.


Muros e certezas se dissolveram ao longo destas três décadas, e nosso partido, ainda que atravessado por inúmeras contradições, permanece a encarnar, com vigor, o sonho de um Brasil democrático e socialmente justo. Apenas para efeito de comparação tomemos como exemplo três importantes experiências que, nos idos de 1980, animavam os debates da esquerda no Brasil e no mundo: as guerrilhas centro-americanas; a URSS; e o Solidariedade da Polônia.


No primeiro caso, a derrota sofrida por alguns dos agrupamentos armados teve um sabor amargo para a esquerda latino-americana. O cerco à Nicarágua e a derrota da revolução sandinista, por exemplo, lançou a FSLN numa complexa trajetória de deformação moral-ideológica, que resultou na adesão de parte daquele movimento a uma prática política que parece afastada dos ideais democráticos de justiça e igualdade. Outras experiências também caminharam em um sentido parecido. De toda aquela energia renovadora e sonhos transformadores, que impulsionaram sacrifícios inenarráveis, pouco restou de suas idéias originárias.


O caso da URSS é mais conhecido. Ainda nos anos oitenta, muitos partidos de esquerda, mundo afora, identificavam naquele país a "pátria mãe" do socialismo. Os regimes do leste não resistiram à estagnação econômica e aos anseios de liberdade e participação democrática que evoluíram com uma força irresistível nos últimos anos da década de oitenta.


O próprio progresso econômico e cultural proporcionado por aquelas revoluções gerou grupos sociais que passaram a exigir mais progresso e um sistema democrático de participação política. Regimes que pareciam eternos ruíram como um castelo de cartas e os acontecimentos posteriores reforçaram a leitura de que aqueles regimes haviam, desde muito tempo, se distanciado dos ideais humanistas e solidários do século das luzes e da esquerda moderna.


Já o sindicato Solidariedade, que parecia encarnar o sonho de uma profunda renovação democrática das utopias do século XX, logo abandonou qualquer compromisso com a justiça social e com os valores de esquerda, transformando-se em fiador de uma restauração capitalista selvagem, que se tornou corrente nas transições dos regimes do leste. Lech Walessa, hoje, é apenas uma figura melancólica de um passado recente, mas sem nenhum apelo político no presente.


Aliás, caberia a comparação entre as trajetórias de Lula, Walessa e Gorbachev. Os dois últimos deixaram inscritos seus nomes na história do século XX, sem dúvida. Mas é Lula quem desponta como referência de uma esquerda aberta e renovada em construção neste início de século.


O Presidente Lula e o PT realizam, hoje, a mais bem sucedida experiência de governo da esquerda contemporânea. Ao combinar desenvolvimento econômico, inclusão social e democracia, oferecemos um exemplo ao mundo, através da renovação da esperança em um mundo pós-neoliberal. Está em curso, na verdade, uma verdadeira Revolução Democrática no Brasil. Do seu aprofundamento poderá emergir um país justo, solidário e sujeito ativo na construção de uma nova ordem global mais equilibrada e pacificada.


A humanidade sempre foi movida, no que de mais nobre ela gerou em termos culturais e econômicos, por sonhos e esperanças. As utopias generosas, que não são perigosas se experimentadas na democracia, tem a capacidade de gerar novos desafios à inteligência. O PT é um partido que contribui com o ressurgimento da esperança e da solidariedade neste inicio de século."

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Os socialistas do PSOL


O PSOL - Partido Socialismo e Liberdade, fundado em junho de 2004 e legalizado em setembro de 2005, é claramente um partido de esquerda, baseado no pensamento marxista. Mas ao contrário dos adeptos do autoritário modelo bolchevique, o PSOL permite o direito de tendências permanentes se organizarem no partido, motivo pelo qual existem trotskistas, luxemburguistas, castristas, eurocomunistas, "trotskistas-cristãos"(caso de Heloisa Helena), católicos de esquerda(adeptos da Teologia da Libertação), e até mesmo anarco-comunistas. Claro, ao mesmo tempo que isso garante uma concepção democrática de partido, também faz do PSOL, um verdadeiro balaio de gatos. Alguns defendem que as alianças sejam restritas ao PSTU e ao PCB, outros defendem a ampliação dessa aliança a outros partidos de esquerda.

Com tantas correntes, é difícil afinar um discurso homogêneo, mas todos os militantes do PSOL concordam em um ponto: é preciso implantar um regime socialista no Brasil o quanto antes. "Achamos que não há condições de fazer isso agora, mas um bom jeito de começar a transição socialista seria reestatizar a Vale do Rio Doce e expulsar o capital privado da Petrobras", diz o presidente da Fundação Lauro Campos(orgão de pesquisas do partido), Roberto Robaina.

O PSOL é o autêntico partido da esquerda socialista e democrática no Brasil. Apesar das correntes trotskistas, como a LSR, CST, MES, ENLACE, e CSOL, assim como de personalidades mais "radicais", como Heloisa Helena e Plínio de Arruda Sampaio, existe no partido um setor lúcido que busca realmente construir o socialismo com liberdade em nosso país. É o caso da corrente APS, do deputado federal Ivan Valente, e de personalidades como Carlos Nelson Coutinho, Milton Temer, Marcelo Freixo, Chico Alencar, Jean Wyllys, Paulo Pinheiro, e Eliomar Coelho.

Claro, esse partido possui erros como defender uma política sectária, reduzindo as alianças praticamente ao PCB e ao PSTU, e fazer uma oposição desleal ao governo Dilma Roussef, classificando-o como neo-liberal(tudo bem que o governo Dilma não é socialista, nem mesmo social-democrata, mas também não é neo-liberal. O governo Dilma é um governo social-liberal de caráter nacional-desenvolvimentista, situado a centro-esquerda do espectro político). Mas fora esses erros, é um partido que tem demonstrado ser possível uma alternativa democrática e socialista.

Essa alternativa também é representada na Itália, pelo Partido da Refundação Comunista. Na Holanda, pelo Partido Socialista. Na Alemanha, por Die Link(A Esquerda). Em Portugal, pelo Bloco de Esquerda. Na Grécia, pela Coalizão da Esquerda Radical. E no Japão, pelo Partido Comunista Japonês.

Socialismo e liberdade


A revolucionária marxista Rosa Luxemburgo, no clássico "Questões de organização da social-democracia russa", escrito em 1904, já havia criticado o modelo autoritario de partido defendido por Lenin. Rosa apoiou a Revolução de Outubro e os bolcheviques, mas manteve sua critica aos erros de Lenin e de seus camaradas, alertando para as consequencias do autoritarismo bolchevique, no clássico "A Revolução Russa", escrito em 1918.

"A liberdade apenas para os partidários do governo, só para os membros de um partido - por numerosos que sejam - não é a liberdade. A liberdade é sempre, pelo menos, a liberdade do que pensa de outra forma (...). Sem eleições gerais, sem uma liberdade de imprensa e de reunião ilimitada, sem uma luta de opinião livre, a vida acaba em todas as instituições públicas, vegeta e a burocracia se torna o único elemento ativo. [...] Se estabelece assim uma ditadura, mas não a ditadura do proletariado: a ditadura de um punhado de chefes políticos, isto é uma ditadura no sentido burguês".

(Rosa Luxemburgo; em "A Revolução Russa")

Rosa Luxemburgo deixou claro em "A Revolução Russa", que ditadura do proletariado não é a ausência de democracia, muito menos obra de uma minoria agindo em nome da classe trabalhadora.

"A democracia socialista começa com a destruição da dominação de classe e a construção do socialismo. (...) Ela nada mais é que a ditadura do proletariado. Perfeitamente: ditadura! Mas esta ditadura consiste na maneira de aplicar a democracia, não na sua supressão. (...) esta ditadura precisa ser obra da classe e não de uma pequena minoria que dirige em nome da classe".

(Rosa Luxemburgo; em "A Revolução Russa")

Segundo o cientista social Michael Löwy: "Constatando a impossibilidade, nas circunstâncias dramáticas da guerra civil e da intervenção estrangeira, de criar "como que por magia, a mais bela das democracias", Rosa não deixa de chamar a atenção para o perigo de um certo deslizamento autoritário e reafirma alguns princípios fundamentais da democracia revolucionária. É difícil não reconhecer o alcance profético desta advertência. Alguns anos mais tarde a burocracia apropriou-se da totalidade do poder, excluiu progressivamente os revolucionários de Outubro de 1917 - antes de, no correr dos anos 30, eliminá-los sem piedade." ( Michael Löwy; em "Rosa Luxemburgo: um comunismo para o século XXI")

A esquerda precisa abandonar a cultura autoritária do bolchevismo(ou leninismo) e resgatando o melhor do pensamento marxista, precisa encarar o desafio teórico de construir o socialismo com liberdade e democracia.

PPL, o sucessor do MR8


Fundado em 21/04/2009, o PPL - Partido Pátria Livre, é o sucessor do MR8 - Movimento Revolucionário 8 de Outubro. Legalizado em 2011, o PPL afirma defender o socialismo científico, mas na prática defende o nacionalismo, misturando stalinismo e getulismo. Apoia o governo Dilma Roussef, defendendo a aliança de centro-esquerda liderada pela dupla PT-PMDB.


Eles sairam do PMDB em dezembro de 2008, e fundaram esse partido em 21 de abril de 2009, mas continuam achando que o PMDB é um aliado importante para a Revolução Brasileira, pois leais a ortodoxia stalinista, defendem uma política ultra-etapista. Para eles, a revolução é nacional-democrática, pois visa libertar o Brasil do domínio imperialista. Somente em um futuro distante é que se poderá pensar no desenvolvimento socialista dessa revolução. Portanto José Sarney e Renan Calheiros são "companheiros revolucionários". Os stalinistas do PPL conseguiram legalizar o partido no ano passado, e esse ano disputarão sua primeira eleição.

Os stalinistas do MR8


O MR8 - Movimento Revolucionário 8 de Outubro, era uma organização de extrema-esquerda que participou da luta armada contra a ditadura militar. Realizou o sequestro do Embaixador dos EUA, Charles Elbrick, em 1969, e teve em suas fileiras, o lider guerrilheiro Carlos Lamarca, ex-capitão do exército, assassinado pela ditadura em 1971.

Em 1972, o MR8 abandonou a luta armada. Dois anos depois, ingressou no MDB - Movimento Democrático Brasileiro, passando a fazer parte da oposição democrática a ditadura. Foi nessa época, que a organização aderiu ao stalinismo. Com o fim do bipartidarismo, o MR8 permaneceu filiado ao PMDB.

Em 1982, os stalinistas do MR8 realizaram o III Congresso Nacional, onde chegaram a conclusão que a revolução brasileira não era socialista, mas sim nacional-democrática, pois a contradição principal não era capital X trabalho, e sim nação X imperialismo. Com isso, definiram que a burguesia nacional era aliada na luta pela revolução brasileira, decidindo se integrar ao PMDB, pois esse seria o "partido revolucionário". O MR8 aliou-se então a Orestes Quércia, que seria eleito governador de São Paulo em 1986.

Apesar de continuar se definindo como marxista-leninista e stalinista, o MR8 se tornou uma espécie de "tropa de choque do quercismo". Em 1989, apoiou Ulisses Guimarães para presidente, e no segundo turno fez campanha pelo voto nulo. Em 1994, apoiou Orestes Quércia, pixando nos muros as inscrições "QUÉRCIA VEM AÍ!"

Quércia não veio, o MR8 sofreu um racha em fevereiro de 1995, que originou o PCR - Partido Comunista Revolucionário. Então, o MR8 passou a defender Getúlio Vargas, afirmando que a ditadura do Estado Novo havia sido uma "democracia popular".

Em 2002, apoiou a candidatura de Lula. Os stalinistas do MR8 - Movimento Revolucionário 8 de Outubro, que além de idolatrar Stalin e a dinastia stalinista norte coreana, também idolatram Getúlio Vargas e Hugo Chavez, apoiaram a reeleição de Lula em 2006.

Em 2008, Quércia se aliou aos tucanos. Por causa disso, em dezembro desse ano, o MR8 se desfiliou do PMDB, rompendo de forma amigável com o quercismo. E em 21 de abril de 2009, o MR8 se transformou em partido, fundando o PPL - Partido Pátria Livre.

Leia o texto abaixo e reflita.


PPL: novo partido de esquerda?


Max Gimenes

Reunido no último fim de semana no centro da cidade de São Paulo, o Comitê Central do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) deliberou a respeito do futuro da organização que, após mais de 30 anos, enfim deixa o PMDB. Ao contrário do que se chegou a cogitar (suposição razoável, aliás, haja vista o exacerbado lulismo que ultimamente tem caracterizado o movimento), não houve proposta de entrada no PT, mas sim o encaminhamento para a busca das 500 mil assinaturas necessárias para a criação de um novo partido até junho de 2009, prazo para que este possa disputar eleições já em 2010.

Chamado Partido Pátria Livre (PPL), referência ao Hino da Independência, a agremiação seria uma forma, segundo seus idealizadores, de avançar na construção de uma frente nacional-desenvolvimentista, cujo líder é o presidente Lula e cujos partidos de sustentação seriam mesmo PT e PMDB, juntamente com o restante da base do governo federal. Criando uma nova legenda, o MR-8 pensa poder conseguir mais espaço e ter mais peso nas negociações políticas, em vez de se tornar mais uma corrente interna no PT.

Contra a entrada no Partido dos Trabalhadores pesa também a forma como este costumava se organizar. Uma das coisas mais importantes introduzidas pelo PT na política brasileira, a democracia interna e a participação ativa da base – embora essas coisas hoje não funcionem bem assim – não são tão bem vistas pelo MR-8. Estes, de tradição stalinista, consideram essa estrutura, com livre organização interna em correntes e tendências, uma bagunça. Preferem um centralismo democrático em que a direção determina a linha e a base segue à risca.

Em seu manifesto de lançamento, datado do dia 7 de dezembro, o pretenso partido reafirma seu compromisso com a visão etapista de revolução, apontando ser necessária a aliança com a burguesia nacional não-monopolista para promover a libertação nacional e derrotar os monopólios internacionais. E, assim, ajudar a jogar terra na cova onde se meteram o imperialismo estadunidense e a ideologia neoliberal por ele sustentada.

O PPL surge, sempre de acordo com o seu manifesto de lançamento (intitulado "Carta ao povo brasileiro", pasmem), como um partido "de esquerda". Não faltou, é claro, uma alfinetada, ainda que sem referência nominal, naqueles que fazem oposição de esquerda ao governo Lula: PSOL, PSTU e PCB. Há as seguintes colocações: "fora dela (a tal frente) o que existe é o retrocesso" e "os setores que se pretendem à esquerda do governo Lula (têm sido levados) ao vexatório papel de linha auxiliar das viúvas do neoliberalismo encasteladas no PSDB e no DEM", estes últimos efetivamente citados.

Em um dos cinco princípios que servirão de alicerce para a futura sigla, há o compromisso com um "horizonte socialista". Se depender do pragmatismo do MR-8, é possível que não haja ser humano para contar história quando chegar tal momento, pois o capitalismo atualmente nos arrasta ao precipício. Para aqueles que imaginam que os "revolucionários" do MR-8 estão rompendo brigados com o partido ao qual ainda pertencem, esqueçam. Sem radicalismos, companheirada. O manifesto é encerrado com um parágrafo que faz média com o PMDB, aquele de José Sarney, Renan Calheiros, Orestes Quércia, entre outras tantas figuras bastante conhecidas pelos brasileiros. Para o MR-8, foi uma "honra" permanecer por lá durante todo esse tempo.

Em recente debate sobre a crise financeira global e também em sua coluna no jornal "Folha de S. Paulo", Cesar Benjamin – editor da Editora Contraponto e, por acaso, ex-militante do MR-8 – afirmou que as turbulências na economia mundial poderão ter sérios impactos no Brasil. O que pode trazer conseqüências para o jogo político-partidário brasileiro que hoje parecem inimagináveis, como uma aliança entre PT e PSDB, por exemplo, em defesa dos interesses nacionais (o que contaria com o apoio entusiasmado do tal PPL, nacionalista acima de tudo).

A criação desse novo partido, ainda que seja algo de certa forma pouco relevante e que talvez nem sequer se concretize, sinaliza que há mesmo espaço para movimentações e rearranjos. O que está por vir não sabemos, mas as surpresas já começam a aparecer.


Max Luiz Gimenes, professor de redação da Rede Emancipa de Cursinhos Populares, é militante do PSOL.

Os comunistas do PCdoB


O giro da roda da história é questão prioritária também nas plenárias do PCdoB - Partido Comunista do Brasil. Renato Rabelo, seu presidente nacional, está convicto de que a queda do Muro de Berlim, em 1989, não representou o fim do marxismo-leninismo. Em entrevista a Veja, no ano de 2010, afirmou: "Quando a União Soviética desabou, houve quem achasse que o socialismo tinha morrido. Que nada! Só alguém sem visão histórica nenhuma pode pensar assim". Para Rabelo, a aventura socialista mal começou: "O capitalismo levou 300 anos para superar o feudalismo. O marxismo tem pouco mais de 100 anos de existência. Ou seja, podemos precisar de mais 200 anos para tornar o mundo comunista".

O mais engraçado é que apesar desse discurso, o PCdoB tem buscado esconder cada vez mais a foice e o martelo. Nas eleições municipais de 2008, a candidata a prefeita do Rio, Jandira Feghali, sequer falou em socialismo durante a campanha eleitoral, e depois foi secretária de cultura na administração Eduardo Paes, do PMDB. E pior, desde quando o vereador paulistano Netinho de Paula, pode ser considerado um autêntico revolucionário marxista? Ele inclusive chegou a dizer que "o partido não pretende mais estabelecer um 'comunismo ao estilo soviético', mas sim um 'comunismo ao estilo do presidente Lula'". Depois de uma besteira dessas, não consigo mais levar esse partido a sério.

Se os comunistas do PCB estão seguindo uma política sectária, os stalinistas "enrustidos" do PCdoB são o oposto. Fazem aliança sem qualquer sentido ideológico, tanto que fazem alianças com o PSD, PR, PTB, e pior, até mesmo com PSDB e DEM, que são opositores do governo Dilma, que o PCdoB apoia com entusiasmo.

Se não bastasse isso, apesar do sucesso inegável do "socialismo de mercado" chinês, é cada vez mais claro que a China está caminhando não em direção a um socialismo renovado, mas sim ao capitalismo de Estado, pois é cada vez maior a presença do conceito capitalista de enriquecimento e acumulação da riqueza na sociedade chinesa. E o PCdoB defende a China como exemplo a ser seguido.

Além de continuar defendendo Stalin, afirmando que esse tirano assassino cometeu apenas "erros", o PCdoB defende o capitalismo de estado chinês, como se fosse um exemplo de "socialismo renovado". Mas também, o que esperar de um partido que defendia a ditadura stalinista de Enver Hoxha, na Albânia, como "farol do socialismo"???

Com a queda da ditadura albanesa e o fim da URSS, em 1991, o PCdoB realizou o seu 8º Congresso Nacional em 1992, onde sem assumir posição anti-stalinista, deixou de se declarar stalinista.

"Não somos stalinistas. Tampouco, somos anti-stalinistas. Avaliamos a figura de Stalin no plano histórico. Ele esteve, juntamente com o Partido Bolchevique, à frente das grandes batalhas pela transformação radical do velho mundo capitalista. Nesses embates, a par dos méritos incontestáveis, mostrou falhas e deficiências, cometeu erros que prejudicaram a causa do proletariado." (João Amazonas; Informe Político do 8º Congresso do PCdoB)


Em 1995, o PCdoB aprovou um novo programa, onde adotou o chamado socialismo de mercado, fazendo da China o modelo para sua nova concepção de socialismo. Desde então, assumiu uma postura pragmatica. Tornou-se o principal aliado do PT, chegando inclusive a defender Renan Calheiros e José Sarney, afirmando que os ataques contra eles partiam da "direita golpista" para atingir o presidente Lula. E agora no governo Dilma, se viu envolvido em corrupção na pasta dos esportes.

Os comunistas do PCB


Os comunistas do PCB - Partido Comunista Brasileiro, mantém de pé a foice e o martelo. Depois da reestruturação ocorrida em 1992, o partido abandonou a política etapista e afirma que a revolução é socialista. Em 2010, lançaram a candidatura de Ivan Pinheiro, secretário geral do partido, para disputar a Presidência da República. Foi o penúltimo colocado, com apenas 0,04% dos votos.

"Nunca fez tanto sentido ser comunista quanto agora", garante o secretário-geral da legenda, Ivan Pinheiro, em entrevista a Veja, no ano de 2010. Pare ele, a crise econômica mundial dos últimos anos é a senha para a ressurreição do modo de vida soviético. "O capitalismo não vai dar conta dessa crise. Digo mais: haverá uma próxima crise, muito maior. Quando isso acontecer, os trabalhadores do mundo todo vão perder seus empregos e terão de voltar a se organizar para lutar. Isso vai acontecer antes do que se imagina", entusiasma-se Ivan Pinheiro.

O problema é que o PCB ainda se organiza segundo o autoritário modelo bolchevique, e pior, não percebe que mesmo após a revolução socialista, ainda será preciso uma fase intermediária onde continuará existindo a propriedade privada e o mercado, mas regulados pelo Estado proletário. Além disso, o partido tem aderido a um tipo de política contrário a sua tradição aliancista, ou seja, tem praticado uma política sectaria e esquerdista, limitando suas alianças ao PSTU e ao PSOL.